quinta-feira, 21 de abril de 2016

O véu da estação

Dizem ser no outono que as árvores começam a despir-se de suas folhas para dar lugar a novas. É um conceito meio eurocentrista. Em terras tupiniquins, torna-se abstrato. O que é o outono paulistano atual senão uma queda notável da temperatura, ares mais secos e uma sensível melancolia no ar?

Não há motivo, nem necessidade de havê-lo. Cheiros, cores e sabores estão o tempo todo a trazer de volta cenas do passado. O contorno desalinhado dos prédios faz lembrar uma terra distante que nunca existiu. O sol brilha no mar de rostos, como faz todo santo dia... Mas, não, agora é diferente. Agora cada alma se ilumina, um universo inteiro preso num pequeno corpo de carne. As borboletas pousadas nas pedras abrem e fecham lentamente suas asas, com um aceno compreensivo. Os violões choram, emocionados, a ouvir seu próprio som. Cada ser parece sentir em dobro, expressar-se em dobro. Cada riso é melódico, cada lágrima reluz furta-cor, a garganta constantemente enovelada. As folhas ensaiam coreografias, brotam com graça, espreguiçam-se no ar.

É tempo de silêncios prolongados e olhares carregados de sentidos. É a hora em que as pessoas contam segredos nos mais pequenos gestos. O pássaro cansado a incendiar-se, apenas para renascer das cinzas.

Quem sabe não sou apenas eu. Vai ver fora da minha cabeça os dias estão passando sem qualquer alteração, segundos a fazer girar o ponteiro dos minutos e das horas numa dança infinita e compassada. Vai ver o mundo ainda é mais ou menos o mesmo e quem mudou foram estes olhos que o observam.

É tempo de caírem as folhas, sem medo ou remorso. É o outono melancólico de uma alma a despir-se.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Se eu fosse você (eu seria você)

Não é espantoso declarar que boa parte das minhas reflexões - eu, jovem paulistana universitária da classe média - tem como cenário um vagão qualquer do metrô. Ambos os percursos que costumo realizar sobre os trilhos, faculdade e casa do amado, são suficientemente longos a ponto de anestesiarem a mente, quando esta não é estimulada por um livro, uma música ou algo que o valha. Nesse estado de torpor, as ideias passam tranquilas, sem pressa, uma após a outra, em fila indiana. Às vezes, uma ideia puxa outra pela mão, desencadeando uma linha de raciocínio incrivelmente nova, inexplorada, excitante (em termos neuronais).

O fato é que eu estava a observar uma moça. Ela era alta, negra, o cabelo preso num coque no topo da cabeça, e falava ao celular. Notei quão meticulosamente pintadas estavam suas unhas, o tom animado da sua voz. O que mais me chamou atenção, no entanto, foi sua boca. Um par de lábios delineados e cheios, tão vibrantes quando comparados aos meus lábios relativamente finos, pensei. Como seria minha vida se eu tivesse uma boca como a dela? Ou, indo além: como seria minha vida se eu fosse ela?

Então essa pergunta puxou pela mão uma resposta aparentemente óbvia: ora, eu seria ela!

Pense você: se tivesse nascido em Londres, na manhã de 16 de abril de 1889, homem e filho de Charles e Hannah Chaplin, você seria ninguém menos que Charlie Chaplin!

Olhei ao meu redor, às outras pessoas no vagão. Todas elas eram possibilidades de mim, bem como eu delas. Se eu tivesse nascido aproximados trinta anos atrás, homem, filho dos pais dele, com os mesmos genes, no mesmo contexto universal, eu seria aquele cara ali, de moicano e regata, sentado do lado da janela. Se eu tivesse nascido em 19** (data não revelada porque ela não gostaria se visse), na mesma família que a minha mãe, no mesmo mundo que a minha mãe, eu seria a minha mãe, do jeito que ela é: dois filhos, mesmo visual, mesmas ideias, mesma essência; exatamente ela.

Não confio ter conseguido transmitir a minha euforia diante dessa linha de raciocínio. Parece muito óbvio quando traduzido em palavras. O lance é que todas, todas, todas (!) as pessoas que existem são possibilidades umas das outras, em diferentes contextos familiares, sociais, históricos, geográficos, etc. Talvez um jeito de enxergar seja esse: todas as pessoas são a mesma (eu, você e todo mundo), expressas dentre várias das possibilidades de existência terráquea. Só uma possibilidade é excluída, se tomarmos como dada nossa existência: a de não existirmos. Outras pessoas, no entanto, não existem e jamais existirão. Ou vai ver que não existe ninguém e esse é mais um sonho maluco de um ser alienígena qualquer.


P.S.: Não faço a menor ideia (de) se Charlie Chaplin nasceu de manhã.

sábado, 7 de março de 2015

Os cacos do mundo


Entender os conceitos de fraternidade e sororidade passa longe do que é senti-los. Você os sente quando abraça uma causa que não é sua, ou quando a dor de outra pessoa escorre pelos seus olhos. É algo que transcende o ego e corre ao encontro do coração des outres. É ter a coragem, pejorativamente caricaturada como "rebeldia", de encontrar o equilíbrio entre pensamento e ação. São gritos de raiva atirados numa avenida, sua própria voz se misturando no ar, dando lugar ao coro, aos gritos, e de repente cada um daqueles rostos marcados pela revolta se transforma em algo maior: uma ideologia. Construímos juntes os escudos, mas ao fim de um dia, estão dilacerados. Espinhos na televisão. Espinhos nas pessoas no metrô, espinhos sob o travesseiro. Somos menos, porém cada um de nós representa o todo, e daí vem a força fascinante dessa minoria. Somos cacos de vasos diferentes. No entanto, o desejo de liberdade nos une como uma cola super bonder.




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Éxons

Paro a travessia no meio da faixa de pedestres para dar passagem ao carro.


Deito no chão que um dia foi a casa dela, e pela primeira vez me permito morrer de saudades. Aceito que a bolha que existe entre nós precisa desesperadoramente ser estourada. Ouço dizer por aí que tudo tem começo e fim, mas sinto que nem todo amor cabe num intervalo. 

Sei que dentro da cabeça o mundo é todo meu. Mas, às vezes, me sinto apenas uma entre sete bilhões.


"Para Marina, na esperança de vê-la tocando para mim um dia..."

domingo, 19 de outubro de 2014

(hemato)poética

Há muito tempo, antes dessa construção se tornar um condomínio de casinhas modernas, precisamente onde hoje fica o quarto em que durmo, existiu um quintal. Pequeno, escondido, um quartel general aos olhos daquela criança magricela. Às vezes, quando o sol estava bom de tomar e os joguinhos lhe aborreciam, ela pegava sua boneca Emília numa mão, o topolino de estimação na outra e saía para brincar no quintal. Um dos quatro lados que o delimitavam era um muro alto de tijolos e concreto, escuro, áspero, guardando um segredo sobre o que havia do lado oposto. Sua única fraqueza era um buraco bem no centro, como um umbigo, do tamanho de um ovo de páscoa. Frequentemente, a menina esmagava o rosto contra o buraco do muro, na esperança de enxergar mais sobre o outro lado, mas tudo que ela sempre via eram folhas compridas e escuras. A única coisa que ela sabia, então, era que do outro lado havia pelo menos uma árvore, e que aquele muro muito provavelmente era o divisor entre sua casa e um mundo encantado.

Um dia, espiando pelo buraco como costumava fazer, ela viu uma fruta. Uma pequena fruta de formato ovalado e ainda verde, pendendo de um dos galhos da árvore. A excitação foi tanta que chamou a mãe e o padrasto para dividirem com ela a alegria da descoberta. "É uma manga, filha. Essa aí é mangueira, mas a terra não é boa, não. Por isso que quase não dá manga." Ela acompanhou a epopeia da manga até o dia em que ela caiu. Simplesmente não estava mais lá. E desse dia em diante a mangueira nunca mais deu fruta, nenhumazinha. "E nunca mais dará", ela pensou. 

Demoliram a casa, derrubaram o muro que escondia a árvore e todo o resto do quintal da vizinha. Construíram o condomínio de casinhas modernas. E a sacada do meu quarto é justamente cara a cara com a mangueira. Eu a acompanhei durante todos esses anos, admirando sua altivez e suas folhas brilhantes, conformada com o fato de que ela jamais geraria qualquer outra manga. Eis que, numa tarde, ao voltar da faculdade, deparo-me com uma fruta verde e ovalada a pender de um dos galhos. Nenhuma palavra no mundo expressará o que essa visão significou para mim. É a renovação súbita da esperança. É mais sobre sentir que escrever. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

O ciclo da vida

Desde que comecei a estudar veterinária, perguntei-me muitas vezes quando eu finalmente sentiria que estava no caminho do meu coração. Foram escuros os dias em que temi jamais senti-lo. Uma escolha impensada, eu achava, impulsionada por um desejo infantil, que não seria suficiente para abraçar a profissão de toda a minha vida.

Duas semanas atrás, estava eu às cinco e meia da manhã na estação Artur Alvim, carregando uma mala, uma bolsa e uma mochila, que a custo comportaram tudo que eu queria levar. Mais tarde, naquele mesmo dia, desfazia-as todas no meu novo quarto. Um quarto que, mal sabia eu, guardaria muitas lembranças deliciosas, e uma saudade maior que aquele campus inteiro. Onde eu faria novas amigas (e o Kateta), e estreitaria os laços com as que já possuía. Onde, juntas, escreveríamos poemas de versos terminados em "eco", gritaríamos de medo, riríamos de faltar ar, aprenderíamos dança do ventre. E comeríamos. Pra cacete.

O sol nascia num vermelho sanguíneo de encher os olhos, emoldurando a silhueta dos cavalos recém-despertos, uma visão tão gentil que compensava nossos protestos por ter de colocar o despertador para tocar antes das seis. A dor muscular advinda* de cavocar silagem com a enxada, ou carregar baldes de ração, sumia quando os víamos comendo com gosto. Andaríamos várias centenas de metros com prazer, só pra não abandonar o Mickey na estrada. Tudo era gostoso, não havia nada que fizéssemos juntos que não valesse a pena. Eu sinto falta disso. São Paulo nos torna muito individualistas, chutando-nos cada um pra um canto. A gente acaba perdendo um pouco aquele sentimento gostoso de ser parte de um grupo.

Foi Pira o palco da descoberta que várias vezes me trouxe lágrimas aos olhos: Os animais estão todos vivos! Soa óbvio, eu sei, mas essa consciência me acertou como um raio. Aqueles olhos, tão cheios de expressão e personalidade, refletiam a mim mesma. Lá estava o feno, que alimentaria o boi. Lá estava o boi, que me serviria de alimento. E, um dia, quando eu morrer, afundarei na terra e ressurgirei como planta, tomando meu lugar no ciclo. Todos temos tempo de ser presa e predador, inclusive as plantas e os humanos. Tudo se transforma, tudo é feito de uma sopa de átomos emprestados. E foi aí que, com o coração a mil, enxerguei a beleza da minha escolha, e o amor pelo que um dia farei.

Sinto falta das estrelas surreais, da palavra-com-A, da guerra de bosta, dos cabritinhos, do Miltinho, da Sharon, do Jafar, do cheiro de cu. E daquela moda, e do C8, e das cococoisas. Mas, acima de tudo, sinto falta de estar com vocês. Aprendi tanto sobre amizade, afeto, convivência e sobre mim mesma nessas duas semanas que mal consegui colocar nesse texto. Quero terminar dizendo que NÃO VEJO A HORA DE PASSAR UM SEMESTRE COM VOCÊS! De preferência, com a presença de um amigo que fez uma falta gritante (saudades, bandeco). 

Obrigada pela parcela enorme de culpa que têm por essas terem sido as melhores férias de todas. E aproveitem esse gostinho de descanso que ficou no fundo da língua.

*adicionem "advinda" à lista que já contém "ousados", "exposta", "frustrada", "precária", "tristonha", etc.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Há dezoito anos que moro na mesma rua. Não conto os dois últimos em que fiquei longe. Eu sempre tive consciência de como ela é linda, mas, às vezes, esqueço. Foi o que acabou de acontecer. Hoje de manhã, levando a Maria Nita pra passear, foi como se a visse depois de muito tempo. O ipê amarelo na calçada oposta à minha ainda estava lá, cobrindo de flores a picape vermelha do vizinho, uma visão que me tira o fôlego desde pequena. A vista do céu ainda é a mesma, uma vista privilegiada, posto que minha rua é bem alta e longe de prédios. Se eu olhar bem pra cima, envergando o pescoço em noventa graus, enxergo só o céu e nenhuma casa, e parece que estou voando. Sem contar a música animada vinda da academia, o dálmata da senhora minha vizinha, a goiabeira na calçada da bifurcação, que só deu fruta uma única vez na história desde que nasci. Como se uma pedra martelasse meu crânio, notei que venho tendo pensamentos tortos. A verdade é outra.

Percebi que tenho muita sorte. Não só por morar nessa rua, mas por ter todas essas chances. Por ter um amor correspondido. Por ter família, amigos, casa. Por poder estudar e viajar. E brotou uma semente há muito enterrada. A vontade de que todo mundo no mundo se sinta assim também.